A terceira idade da mulher com deficiência, estamos levando isso a sério?

Sempre me pego falando, “no meu tempo era assim…”, depois de tanto repetir esta frase, caiu a ficha que estou envelhecendo… como todos. Embora nunca imaginei ser eterna, tenho observado que tem aparecido em mim, diversos problemas que antes não sentia e que agora fazem parte do meu dia a dia.

A idade chega de forma implacável, junto dela os problemas que herdamos por extravagâncias cometidas na juventude, mesmo sendo aconselhadas em não fazê-los, a mocinha nos dá a sensação de invencibilidade, que somos heroínas em nosso meio e podemos tudo.

E se envelhecemos, temos que ter a consciência de que, quem cuida de nós ou auxilia também envelhece, no mesmo compasso. Mas o que mais preocupa é quando os pais se vão e esta mulher com deficiência não tem ninguém que chama a responsabilidade para si, porque os irmãos já tem suas próprias vidas em ritmos que escolheram, suas famílias… e na maioria das vezes, não tem como ou não querem assumir tal situação, nos deixando mais vulneráveis do que já somos.

O que faremos quando esta fase chegar ? devemos ir para asilos sem preparação nenhuma para nossas necessidades ? Embora as pessoas dizem que idosos são todos iguais, que todos são parecidos e blá blá blá… Nós sabemos que não é assim que funciona.

Quando somos jovens – nós pessoas com deficiência – já temos certas especificidades, imaginem quando a idade chega ? Fica mais complexo ainda, porque vem a fragilidade da idade, mais a deficiência, que são fatores estressantes para nós que iremos mudar de “mãos” de cuidadores… É muito medo… muitas dúvidas.

Estamos envelhecendo e não vejo ninguém se preocupando com essas mulheres com deficiência. Não vejo nenhuma política pública clara e objetiva neste sentido, vejo reuniões sem resoluções, enquanto isso o tempo está passando, passando, passando. Discute-se o envelhecimento das pessoas com deficiência intelectual, porém nada sobre outras deficiências, temos que levar em consideração que nosso universo é muito extenso e não paramos somente nas deficiências que são vistas, pois atualmente temos também as doenças raras que são milhões e com muito mais cuidados. E poucos pensam nisso.

Essas mulheres vivem uma vida inteira de luta contra as dificuldades, algumas casam, constituem família, mas não tem garantia que haverá suporte das pessoas próximas na velhice, tendo a mesma situação daquela que não casou e não tem filhos.

Família não é garantia de ter quem olhe, cuide ou ame a pessoa quando esta adoece ou envelhece, isso foge dos laços e vínculos sanguíneos, quem é de fora muitas vezes faz este papel por questões de laços afetivos serem profundos, entretanto o que fazer quando não ocorre essa situação ? Vai para onde ? Quem cuida ? Vive a mercê da boa vontade alheia ? E a história de vida desta mulher, como fica ? As suas emoções, sua autoestima, sua autonomia, seu livre-arbítrio ?

Não pense ou torça o nariz para este assunto, alegando que não é problema seu. Realmente ele não é seu, é nosso ! Porque ele é real, mas não é discutido, nem visto constantemente. Às vezes ouvimos uma história aqui… outra lá… que alguma idosa com deficiência pode estar em condições de abandono. Ficamos incomodados por algum tempo, depois esquecemos até ele ressurgir novamente. Mas essa idosa pode ser você ou eu amanhã…. Pense nisso !

Como haverá mudanças se não provocamos a sociedade a refletir ? Se esses casos são escondidos, porque não são estatísticas, então não tem debates sérios, políticas públicas formatadas, locais preparados para estas mulheres PcD idosas, profissionais capacitados para dar a tranquilidade merecida. Tudo fica jogado ao acaso…

Quem governa atualmente, os nossos políticos, demonstram claramente que não tem mais preocupação em trabalhar para o povo, somente para o seu interesse próprio e dos seus pares… porque os nossos problemas, hoje não fazem parte mais das prioridades deles. Estes homens e mulheres que detém o poder, já perderam a sensatez, a honra, o valor humano, só que ouvimos são promessas e logo em seguida a falsidade para conosco… e o descaso correndo solto.

A cada dia a população cresce, assim como os problemas também, há necessidade de união de lideranças honestas, sem vaidade em ser “pai ou mãe” da criança ou da ideia… Precisamos ter gente que lute de verdade – e com verdade – pelos que realmente estão desprotegidos. Gente e governantes que façam o que tem que ser feito, mesmo com poucas armas, mas com muito amor no coração, porque quem tem amor, tem a arma mais poderosa, que vence qualquer coisa, qualquer obstáculo ou medo.

 

Por Márcia Gori

Extraído da Revista Reação – Ano XVlll – Nº 104 – Maio/Junho 2015

Ortopedia São José
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