Análise do movimento humano, sua história e aplicações

A análise clínica do movimento envolve a medida de parâmetros biodinâmicos fundamentais, a compilação dos dados colhidos, a interpretação destas informações com respectiva identificação dos desvios do padrão do movimento normal, e a recomendação e indicação das alternativas de tratamento. Isto tem conduzido a grandes utilizações na avaliação dos desvios do movimento, onde os mesmos são freqüentemente complexos, multiplanares, e relativamente destorcidos para um observador fixo que utilize apenas a sua capacidade visual para identificar tantos movimentos ao mesmo tempo.
A ciência prega que é preciso compreender a história normal ou natural de um fenômeno estudado, antes de tentar escrever e estudar o patológico e anormal. Pensando nisto é que surgiram inúmeras obras celebres sobre o movimento humano normal.

Os irmãos Weber publicaram o primeiro trabalho científico em 1836. usando instrumentos como um cronômetro e um telescópio com escalas, eles descreveram e mediram elementos da marcha, como comprimento do passo, cadência, a liberação do pé no solo e a excursão vertical do corpo.
No século 19, outros pesquisadores, assim como, Marey e Vierordt, fizeram uso de uma engenhosa tecnologia para expandir nosso conhecimento sobre o movimento. Desenvolveram um calçado que continha um compartimento de ar capaz de capturar e indicar as fases de balanço e apoio da marcha. Outra inteligente idéia foi o uso de um pequeno jato de tinta acoplado ao calçado e aos membros. O jato de tinta marcava o solo e a parede por onde o indivíduo andava e produzia uma marca permanente do movimento.

Concomitantemente, avanços no campo d cinematografia criaram um poderoso método para estudar e capturar os padrões cinemáticos do movimento humano e animal. Muybridge deve ser o indivíduo mais conhecido desta época que usou a cinematografia para documentar seqüências de movimentos. Em 1872, ele usou uma seqüência de fotografias para demonstrar que durante o trote do cavalo suas quatro patas permanecem mesmo que por pouco tempo sem tocar o solo. Ele também criou uma coleção de fotografias do movimento humano e animal, que foram inicialmente publicadas em 1887 e agregadas e reproduzidas em 1979.
Neste início, o movimento humano ficava limitado a análise planar; o movimento era coletado no plano sagital e menos freqüentemente no plano frontal. Baune e Fisher  são os primeiros pesquisadores entre o período de 1895 e 1904, a realizar uma compreensiva análise tridimensional do movimento. Usando quatro câmeras (dois pares captando cada lado do corpo) e um conjunto de tubos de luzes fixados a vários segmentos corpóreos, eles documentaram a cinemática articular em três dimensões.

Por volta do século 20, a compreensão do movimento crescia em larga escala pelos muitos avanços da ciência. A instrumentação da cinemática envolveu desde uma simples filmadora, com filme que necessitava meticulosa análise com régua e transferidor, até sofisticado sistema de infravermelho com dados de coordenadas dos segmentos em tempo real. Pesquisadores notáveis que contribuíram com a descrição da cinemática do movimento humano usando uma variedade de técnicas de imagem incluem Elberhart (1947), Murrey (1967), Inman (1981), Winter (1991), Sutherland (1988) e Perry (1992). Não menos importantes foram os trabalhos de Murrey, uma fisioterapeuta e pesquisadora que publicou muitos trabalhos nas décadas de 60, 70 e 90, descrevendo vários aspectos da cinemática normal e patológica do movimento humano. Entre outros trabalhos sobre a cinemática de indivíduos com deficiência física influenciou no desenvolvimento de articulações artificiais e próteses de membros inferiores.

De maneira semelhante, um melhor entendimento da cinética da marcha só foi possível após o desenvolvimento de dispositivos que medissem a força aplicada pelos pés no solo. Com a habilidade de medir a força entre o solo e os membros vieram os métodos computacionais para calcular as forças e torques das articulações durante a deambulação.
A eletromiografia de superfície foi mais uma ferramenta criada com o objetivo de registrar e analisar o movimento humano, pois ela permite a mensuração do padrão de recrutamento muscular em situações estáticas ou dinâmicas. Essa medida é realizada por meio de eletrodos de superfície que são utilizados para capturar a atividade elétrica dos músculos. Quando esta informação é integrada a cinemática do movimento, o papel dos músculos durante tal movimento é descrito. Muitos pesquisadores, incluindo Sutherland, Perry, Inman, e Winter, vêem dando notáveis contribuições para o estudo da eletromiografia durante o movimento.

Atualmente, a análise do movimento passou a ser rotina nos especializados laboratórios de biomecânica. Dados da cinemática tridimensional são obtidos por meio de câmeras infravermelhas sincronizadas. A força de reação ao solo utiliza plataformas de força ao nível do solo. O padrão de atividade muscular é capturado por um sistema múltiplo de eletromiografia. Os resultados são as forças torques e potências articulares calculadas em combinação com os dados cinemáticos, forças de reação ao solo e características antropométricas individuais. Estes dados são utilizados então para descrever o movimento normal e patológico.
Pacientes com uma variedade de doenças podem ser beneficiados pela análise de instrumentada do movimento.  Os primeiros pacientes beneficiados por esta tecnologia, foram as crianças com paralisia cerebral e posteriormente indivíduos com mielomeningocele, trauma de crânio, acidentes vasculares, lesões medulares, doenças degenerativas, ortopédicas e reumatológicas que foram e estão sendo estudados. Nesta população, a análise instrumentada do movimento é utilizada principalmente para ajudar a determinar a intervenção cirúrgica, a terapia física, os bloqueios periféricos e a indicação e adequação de órteses e próteses de maneira mais adequada. Estes indivíduos realizam uma análise posterior aos procedimentos para verificarem a evolução dos casos.

Neste sentido, atualmente o uso de técnicas e a aplicação de conhecimentos referentes a análise de movimento é indispensável na avaliação e tomada de conduta no contexto da reabilitação, entretanto, há no Brasil, poucos cursos de Pós-Graduação na área da saúde que tenham inserido este conhecimento já consagrado mundialmente como foco principal do programa educacional.

* Extraído da Revista Nacional de Reabilitação – nº 56

Ortopedia São José
Ortopedia São José

Comentários