Cadeirante ou usuário de cadeira de rodas?

Nossa língua é viva e assim sempre temos a possibilidade de nos depararmos com palavras novas, ou com mudança de sentido de palavras antigas. Expressões em línguas estrangeiras também acabam por serem incorporados no nosso dia a dia. Quem nunca usou delete ou invés de descarte, gay ao invés de homossexual, site ao invés de lugar, e por ai vai.
Quando uma palavra nova entra no domínio público, abre-se a possibilidade de nos depararmos com um novo conceito. É como se as palavras ganhassem vida própria e delas decorressem novas formas de nos posicionarmos no mundo. O inverso também acontece. Às vezes as palavras ficam obsoletas e nos empurram par o uso de novas expressões.
Foi exatamente isso que aconteceu com a palavra “cadeirante”, expressão usada para designar quem necessita usar uma cadeira de rodas para sua locomoção. Até o início dos anos 2000, os Movimentos de Luta deste seguimento usavam o termo, “pessoa portadora de deficiência”, paralelamente e contra o que pregavam os Movimentos, órgãos oficiais tentaram emplacar o termo “pessoa com necessidade especial”, os chamados PNE. Porém, somente na segunda metade dos anos 2000, com a participação do Brasil na Convenção Internacional da ONU dos Direitos das Pessoas com Deficiência, é que o termo “pessoa com deficiência” passou a ser usado oficialmente.
Entretanto, sempre há uma distância entre a língua oficial e a que usamos no nosso dia a dia. O termo “pessoa com deficiência” é abrangente e designa a todos que podem ser classificados com algum tipo de déficit, seja ele físico, sensorial ou intelectual.
Entretanto, a subjetividade interfere na escolha das palavras, e de alguns anos para cá, surgiu o termo “cadeirante”. Talvez pelo estigma em torno da cadeira de rodas, a mudança social acabou por forçar o uso de um adjetivo que combinasse mais com os novos tempos.
Quem nunca leu na imprensa ou ouviu alguém comentar a infelicidade de alguém por estar “preso” a uma cadeira de rodas? Porém com o tempo, o cadeirante passou a circular nos shoppings, a ser aluno nas Universidades, a estar presente nas empresas como patrão ou empregado. Você passou a vê-lo na TV ou no cinema, não como aquele que tem como único objetivo na vida voltar a andar, mas aquele que vai à praia, que viaja, que namora, engravida, enfim, que tem os mesmos sonhos que você. E ai, como uma roupa que saiu de moda ou não cabe mais no seu dono, os termos, “deficiente” e “PND” não cabem mais nessas pessoas, e uma expressão que demonstre mais dinamismo passou a se impor: a de cadeirante.
Ainda nos deparamos com usuários de cadeira de rodas. Alguns de forma temporária, pois momentaneamente, por uma razão ou por outra estão impedidos de andar, outros porque embora com lesões permanentes, ainda estão num processo de reabilitação, não só físico como psíquico para se tornarem cadeirantes.
Com o advento das redes sociais é cada vez mais rápido acompanharmos a passagem de um usuário de uma cadeira de rodas para um cadeirante. Talvez pela emergência desses novos tempos e pela melhora, ainda que tímida, das condições arquitetônicas de nossas cidades, vamos vendo cada dia mais o surgimento de novos cadeirantes. E você, é usuário de cadeira de rodas ou já se tornou cadeirante?

Por Maria Paula Teperino
Extraído da Revista Reação – Ano XlX – Nº 108 – Janeiro/Fevereiro 2016

admin

Comentários