Deficiência: Ineficiência de viver?

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Têm assuntos que parecem ser verdadeiros tabus. O senso comum adota como verdade absoluta e ninguém pode ousar falar o contrário sem o risco de ser quase linchado verbalmente. Sem fazer muito esforço, consigo pensar em uns 10 assuntos desse tipo, mas o que mais me vem à mente é justo o adjetivo principal que as pessoas usam para se referir a mim e a qualquer amigo meu em situação semelhante. Às vezes, nem precisa ser muito parecido, basta que a pessoa tenha uma deficiência, uma doença crônica, uma doença adquirida, uma tragédia familiar.

Inicialmente, o termo não me incomodava, porque geralmente era dito se referindo a pessoas que tinham passado por algo realmente muito complicado, como sobreviver a um acidente aéreo que o deixou com 5% de chance de sobreviver e, ainda assim, a pessoa conseguiu. Depois, começou a ser aplicado em casos não tão graves, mas que a pessoa mantinha o bom humor diante de alguma situação minimamente trágica. Com o passar do tempo, virou uma espécie de elogio pronto, que deveria sempre acompanhar qualquer história que envolvesse algum tipo de problema. Algo que, a priori, atrapalharia os planos para uma vida digna.

O termo passou a ser utilizado principalmente na mídia. E virou tema de diversas palestras, vídeos motivacionais, livros, documentários…

De repente, as pessoas com deficiência (principalmente) deixaram de ser vistas como vítimas de um destino cruel e passaram a ser vistas como semi-heróis, que venciam verdadeiras tarefas hercúleas que a vida lhes impunha diária e constantemente. Independentemente de elas realmente enfrentarem tantas provações quanto se imaginaria. Independentemente da deficiência delas exigir apenas algumas poucas adaptações.

Logo em seguida, começou a fase dos exemplos de superação que eram também a inspiração diária. Começaram a chover imagens com dizeres: “Essa pessoa tem (nome de uma deficiência) e mesmo assim continua sorrindo. Quais são os seus problemas agora ?”. Heróis, que também eram o parâmetro negativo para se minimizar os problemas do cotidiano: “olha só, sua vida não é tão ruim”.

O problema é que, embora isso pareça uma mudança, na realidade não é. É apenas uma outra forma de dizer a mesma coisa: “Morro de pena de você e odiaria estar no seu lugar” !… Ok, não discordo de todo. Ter uma deficiência geralmente não é o sonho de ninguém, não é como ganhar um bilhão de dinheiros na loteria.

Ter uma deficiência significa uma mudança de roteiro de vida. Significa adaptação física, emocional e ambiental. Significa aprendizado, significa que será necessário usar a criatividade para fazer certas coisas fora do padrão. Mas tudo isso precisa de respeito, mas não de louvação. Elogiar é algo importante, mas igualmente importante é saber quando um elogio não é, na verdade, uma crítica disfarçada. E se referir sempre a todas as pessoas com deficiência como exemplos de superação é dizer que o natural seria que quem tem uma deficiência vivesse deprimido, desanimado e desistisse de viver a vida real, para ficar trancado num quarto.

Esse quadro existe – e é comum no período de luto pós-aquisição de uma deficiência, por exemplo – mas não deveria ser tido como um comportamento aceitável e esperado. Inclusive, porque ele incentiva a visão errônea de que a deficiência é uma sentença par ao fracasso ou para a ineficiência de viver. Obviamente, as deficiências não são todas iguais. E exatamente porque não são todas iguais, não deveriam ser tratadas todas como um quadro debilitante que impede que a pessoa simplesmente continue vivendo.

Todos conseguem lidar com a deficiência maravilhosamente bem ? Não, mas certamente a maioria consegue. Ou poderia conseguir, se tivesse incentivo, acessibilidade e trabalhos de inclusão. Por isso, vale uma boa reflexão, de como o termo “exemplo de superação” é desnecessário, pois na maioria das vezes não passa de um elogio pronto feito para toda e qualquer pessoa com deficiência que continua tocando a vida.

Comecem por deixar de lado a necessidade de ver a pessoa com deficiência como alguém absurdamente diferente e passem a vê-la como uma pessoa qualquer, que também tem uma característica específica que foge ao padrão. E se quiser elogiá-la, elogie as características que o tornam uma pessoa tão única quanto qualquer pessoa que você conheça. E se ela realmente for excepcional para driblar a condição dela, elogie a capacidade de adaptação dela, elogie os talentos, elogie seu entusiasmo e bom humor, não apenas sua capacidade de superar.

Elogiar a “superação” como elogio máximo é enxergar sempre os obstáculos que a pessoa enfrentou, em vez de enxergar as pessoas em si.

Se vc vê apenas o obstáculo, você está deixando de p restar atenção em todo o caminho. Por isso, ajude a removê-lo, em vez de perder tempo elogiando quem consegue ultrapassá-lo. Garanto que a diferença será muito maior !

Por Lak Lobato

Extraído da Revista Reação – Ano XVlll – Nº 104 – Maio/Junho 2015

Lak Lobato é surda desde os 10 anos e passou mais de 20 anos sem ouvir, recuperando a audição através do implante Coclear. É palestrante, comunicadora formada pela Universidade Anhembi Morumbi, autora do blog e livro “Desculpe, não ouvi!” sobre deficiência auditiva sob o foco dos surdos oralizados usuários da Língua Portuguesa e de próteses e implantes auditivos. Já escreveu para os sites Acessibilidade Total, Aceso Total e ADAP. Atualmente, assina uma coluna no blog Amigos da Audição. Blog: desculpenaoouvi.com.br

Ortopedia São José
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