E o preconceito ……. Somos todos iguais na diferença

Recebi há poucos dias um relato interessante e começo esse artigo contando: “Sou cantora e trabalho como freelancer em algumas bandas de bailes há mais de 4 anos. Como de costume, me avisaram com umas duas semanas de antecedência sobre a agenda do casamento, onde eu iria fazer o trabalho (cantar) na cerimônia e na festa de dois casais distintos. Porém, 2 dias antes do evento sofri uma lesão no meu pé, uma inflamação no calcanhar (fascite plantar). Tive que enfaixar o pé e coloquei a botinha. Bom, como já havia me comprometido com o trabalho, fui mesmo com o pé nessas condições. Chegando no ponto de encontro recebi a notícia de que eu faria somente a cerimônia, pois o noivo da festa que faríamos não aceitou que eu cantasse com o pé machucado, pois indiretamente, disse que não havia contratado uma cantora com a perna quebrada. Fiquem em choque, pois nunca imaginaria que em pleno século 21 passaria por esse tipo de discriminação. Resumindo…. fiz a cerimônia e fui para casa. Não me pagaram o valor combinado e colocaram uma pessoa para me substituir. Deixei de fazer um outro evento por estar disponível. Eu poderia ter ‘furado’, mas em respeito ao casal e ao contratante, fui ao compromisso, mesmo com dor e impossibilitada, e tive essa desagradável surpresa. Me senti muito triste não só pelo dinheiro, mas porque fui avisada praticamente na hora. Me desloquei até o local impossibilitada e cumpri minha palavra, mas não tive a mesma sorte nem da parte do contratante, nem do noivo, que absurdamente tomou essa atitude. Minha voz estava em perfeitas condições de trabalho, mas mesmo assim, fui substituída e discriminada”, relatou Bárbara Amorim, 29 anos, cantora e repórter.

Esse é um dos muitos casos que chegam ao meu conhecimento…. Como sabemos, preconceito é um conceito ou opinião formados antecipadamente, som maior ponderação ou conhecimento dos fatos. É a idéia preconcebida (prefixo pré e conceito), um “juízo” preconcebido, manifestado geralmente na forma de uma atitude discriminatória perante pessoas, lugares ou tradições considerados diferentes.

Nos últimos anos, nossa sociedade avançou positivamente na questão sobre quebra de preconceitos, mas sabemos que é preciso avançar muito mais. O preconceito é ainda uma grande barreira que impede que pessoas exerçam sua cidadania ou qualquer função por terem alguma limitação (temporária ou não) mesmo que esta não limita o seu desempenho. Muitos casos acontecem em que uma pessoa preenche todos os quesitos para um trabalho, mas que por alguma deficiência física ou sensorial (que não impede o trabalho), não é contratada. Muitas vezes só percebemos a realidade dessas questões quando nos encontramos na mesma situação, seja temporária ou definitiva.

Longe de julgar o contexto comercial de toda a situação citada acima (da cantora), que é complexa, ao mesmo tempo, pergunto: será que foi o layout ou uma foto dela “quebrada” que prejudicaria o evento? Por que não tirar uma foto da cintura pra cima ou até, por que não, tirar do corpo inteiro?

Com uma pessoa com deficiência não é diferente. Já houve um caso em que uma cantora fechou um negócio e chegando no dia do evento o contratante a descartou porque, mesmo com excelente apresentação visual, ela tinha deficiência visual (por mais que não se cante com os olhos).

Outro caso interessante aconteceu no interior de São Paulo, há alguns anos. Um médico veterinário foi aprovado em primeiro lugar em um concurso público para atuar como fiscal do Conselho de Medicina Veterinária. O que causou estranheza foi o fato de que, o segundo colocado, foi chamado para preencher a vaga, e ele, o primeiro, ficou esperando sem ser convocado. Angustiado, percebeu que a sua condição de cadeirante é que havia determinado a inversão na classificação dos candidatos. No edital do concurso, não havia nenhum impedimento para que ele participasse. Ao contrário, algumas vagas estavam reservadas a pessoas com deficiências. O representante do Conselho afirmou que o candidato não foi chamado porque não se enquadrava nos requisitos para o cargo, mas, depois que o caso veio a público, a posição foi revista. Foi preciso denunciar para que a situação mudasse. Esse médico já havia exercido cargo semelhante em outro estado. A sua frustração foi grande, mas ele foi à luta, exigindo os seus direitos.

Há muitos outros casos dessa natureza ocorrendo, que não são denunciados, que reforçam a discriminação e atrasam o processo de inclusão de um grande número de pessoas.

A condição de “deficiente” é apontada em muitas situações como algo fora do comum, anormal, excepcional. Muitos comportamentos ainda exprimem espanto, negação, marginalização, superproteção e outros sentimentos confusos. A presença de algo fora do dito “normal”, “deficiente”, ainda provoca reações emocionais cujas proporções são surpreendentes. Em tantas situações podemos observar que a deficiência incomoda, aparece, constrange, enquanto a deficiência de caráter, da moral, do espírito, na maioria dos casos, possui excelente aparência física e até ocupa elevados cargos na sociedade.

O preconceito para com a pessoa com deficiência, mesmo sendo capaz para tantas funções, ainda existe nessa época em que se luta, por exemplo, pela diminuição da desigualdade social e pelos direitos de várias outras “minorias”.

Trabalhar, praticar esportes, sair com amigos, dirigir, namorar, se divertir também fazem parte do dia a dia de pessoas….. que são, simplesmente, pessoas!

Árvores são diferentes, flores são diferentes, plantas….. pássaros são diferentes. E pessoas também. No entanto, o preconceito vive ao nosso redor.

Mais do que uma questão de políticas públicas, econômicas, sociais, culturais, campanhas de solidariedade, outras….. existe a deficiência moral, com valores distorcidos e caráteres contaminados, que não consideram que seres humanos são ricos na diversidade, no diferente.

Na luta contra a discriminação e o preconceito, seja este em relação às pessoas com deficiência, pela cor, sexo, peso, altura, etnia ou outros….. vivemos um ciclo. São anos de muito trabalho, exposição pública, caminhadas, campanhas, mídias abordando o assunto, a conscientização e sensibilização em vários segmentos da sociedade com resultados positivos. Porém, sempre vem uma nova geração de pessoas e, por isso, se faz necessário a continuidade desse trabalho.

Mas….. até que ponto podemos afirmar que terá fim? Sempre vão existir pontos de vista diferentes, como também mudanças de conceitos e paradigmas. Isso também mediante o convencimento por meio de muito trabalho.

Ainda existe preconceito? Sim.

Existe discriminação? Sim.

E os mitos? Continuam.

Como fazer para mudar isso?

Não adiantam apenas palavras, mas ATITUDES….. Tem que ter atitude!

Conheço um empresário que tem deficiência visual, por exemplo, e que tem ficado à porta do seu salão de beleza chamando os clientes para cortarem o cabelo ali. A cena é hilária, porque nenhum cliente o escolhe para o trabalho, mas ele com sua atitude tem atraído conversas sobre o tema e pré-conceitos.

O que é ser “perfeito”? o que é ser diferente? Ser diferente é ser normal, por cada um possuir um jeito singular de viver e enxergar a vida.

Então, estamos nessa edição em período de festas. Já chegando o Natal, onde é comemorado – pelo menos deveria – o nascimento de Jesus e a entrada de um novo ano, em que esperanças costumam ser renovadas, promessas de uma vida diferente, objetivos, conquistas e realizações. O que podemos esperar? Em que podemos contribuir para que todos nós possamos ser valorizados, independentemente de qualquer situação?

Natal….. Jesus….. Ano Novo….. nossas vidas….. E Jesus, creio ser o maior exemplo de inclusão e de quebra de preconceitos que existe. Seus Princípios e ensinamentos mostram que todos são iguais, apesar das diferenças: “….. cada um considere os outros superiores a si mesmo”, ele disse. “Infeliz quem fizer o cego errar o caminho. E todo o povo dirá: Assim seja!”….. “Porque, para com Deus, não há acepção de pessoas”, deixou como mensagem.

Assim, se aplicarmos esses Princípios – e outros – creio em um mundo melhor para todos, a começar pelo mundo de cada um de nós.

Extraído da Revista Reação – Ano XVlll – Nº 107 – Nov/Dez 2015

*Suely Carvalho de Sá Yañez é Terapeuta Ocupacional especializada em Orientação e Mobilidade para pessoas com deficiência visual e atua na área de reabilitação e Consultoria.

Ortopedia São José
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