Vida e saúde de pessoas com deficiência

A sexualidade é um componente fundamental da saúde plena. Vincula-se a intimidade, afetividade e a ternura; a um modo de sentir e exprimir-se, vivendo o amor humano e as relações afetivo-sexuais. Sua influência está presente sobre todos os aspectos da vida humana, desde a concepção até a morte, manifestando-se em todas as fases da vida – infância, adolescência, fase adulta, terceira idade – sem distinção de raça, cor, sexo, deficiências, etc., não se referindo apenas aos aspectos genitais, considerando esta dimensão como uma de suas formas de expressão, porém não a única.
Ninguém consegue ser feliz sexualmente se vive em conflito com o próprio corpo. Durante um tempo variável, dependendo de características individuais, pessoas que adquirem uma deficiência podem experimentar um estado depressivo, que impede a vivência plena do prazer sexual.

Superar o trauma de adquirir uma deficiência não é tarefa fácil, exige da pessoa com deficiência um esforço constante para exorcizar os fantasmas do passado. Superar o trauma é se despedir do passado, é desistir de um jeito determinado de ser, é aceitar a inevitabilidade do tempo que passa, que flui como um rio levando tudo para um novo lugar. Nostálgica despedida de um corpo, de uma vida, de uma história que, apesar de ser sua história, hoje não faz mais nenhum sentido.
Este estado é repleto de dúvidas sobre o futuro. A pessoa se sente meio anestesiada, a angústia dos primeiros momentos do acidente já estão distantes, a reabilitação segue com ganhos menos expressivos… a pessoa já consegue grande autonomia, mas os novos limites adquiridos com o acidente fazem com que ela tenha muito presente o que perdeu: a capacidade de andar, a falta da visão, a dificuldade de raciocínio, ou perda auditiva… não importa a deficiência adquirida, neste momento o trauma, a tristeza e a melancolia, fazem com que o horizonte seja visto como uma miragem do passado, é quase impossível se sentir pleno.

A sexualidade acontece mesmo neste limbo, o prazer é vivido com altos e baixos, a pessoa sente que está traindo a si mesma, sendo infiel com seus valores, seu modo de ser de antes da aquisição da deficiência. Sem conseguir viver com desenvoltura nesta nova condição, o corpo sobreviveu, mas a identidade se modificou, o corpo se transformou, e os sentimentos são desencontrados.
A pessoa com deficiência somente vai encontrar a felicidade amorosa quando atravessar o deserto do real, quando começar a criar uma nova forma de ser no mundo, quando aceitar o presente como dádiva e arriscar viver intensamente por um futuro melhor.
Renascer para a vida, arriscando trilhar novos caminhos onde possa surpreender-se a cada instante, poder adquirir a alegria esquecida, a espontaneidade criativa.

A única forma de se chegar a este estado de consciência é pelo esquecimento, guardar as histórias e abrir mão das memórias. Cada dia é uma oportunidade nova para encontrar alguém especial, algo apaixonante para viver, com muita coragem para enfrentar o desconhecido, que a cada instante se renova diante de nosso olhar.
Neste estado a pessoa com deficiência está pronta para viver o prazer possível. Por exemplo, se possui uma deficiência física, se perdeu parte da sensibilidade genital e da capacidade ejaculatória, essa pessoa começa a experimentar o corpo procurando novas zonas erógenas, utilizando acessórios sexuais ou buscando relações com altos graus de erotismo, através das fantasias vivenciadas.

O único sexo que vale a pena para pessoas que tem alterações de sensibilidade é o sexo paixão, o amor vivido durante o enamoramento, o tesão de star envolvido visceralmente com alguém que suga nossos sonhos e realiza a mágica do prazer.
Outro exemplo de indivíduos com deficiências que superaram as barreiras do amor, podem ser encontrados em pessoas com baixa visão, ou mesmo cegas, que participam da celebração da vida por meio da dança, do teatro e da música. É apaixonante estar junto de um cego bem resolvido, um cego que confia em si mesmo e nos seus parceiros, a ponto de aceitar os desafios de viver relacionamentos íntimos.

As pessoas que adquiriram uma deficiência auditiva ou que nasceram surdas, enfrentam barreiras na comunicação para viver a sexualidade. Em realidade, vivem a sexualidade de modo intenso na comunidade surda, orem, sabem pouco sobre a sexualidade fora do gueto protegido, temem se envolver com o desconhecido…. todo aquele que não fala LIBRAS, é visto com ressalvas – a sexualidade do surdo está sendo bombardeada pela inclusão social.
Surdos em escolas inclusivas passam a se comunicar de forma mais abrangente, aprendendo sobre relacionamentos e sexualidade de um modo novo, exigindo constante adaptação dos seus valores a nova realidade. Surdos e ouvintes estão construindo um novo jeito de se envolver, os frutos podem ser doces e alguns muito amargos, mas esta realidade não tem volta.

Já as pessoas com deficiência intelectual, estão sempre sujeitas as suas famílias. Se são tratadas de modo natural, aberto e criativo, irão viver a sexualidade possível de acordo com seus limites, mas sempre superando as dificuldades com apoio e boa vontade dos familiares.
Para as famílias serem pró-ativas com a sexualidade dos filhos com deficiência intelectuais, é necessário que tenham superado o complexo trauma de serem pais de um filho nesta condição…ter um papel de pai ou de mãe quem sabe colocar limites sem rejeitar, que consegue apoiar o filho a enfrentar os relacionamentos mais amplos. São pais inclusivos que sonham par o filho uma vida completa : com estudo, trabalho, lazer, amizade, amor e sexo. Casais sexualmente equilibrados conseguem lidar com mais facilidade com os desafios da inclusão afetivo-sexual.

* Extraído da Revista Nacional de Reabilitação. Nº56.

Ortopedia São José
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